
Alencar, São Paulo. … data da publicação.
A noite cai sobre Alencar como um manto de luto, reconhecendo em si mesma a doença sombria que infligiu suas ruas. No passado, eram vibrantes com o burburinho da vida cotidiana, mas agora se encolhem sob o peso do medo. A tirania dos Juízes paira sobre a cidade, sufocando a alegria e a esperança. Queria que essas palavras fossem apenas uma alegoria, mas vi em minha própria prole, o desenrolar da paranóia, por alguns chamados de ansiedade alencarina, mas por mim determinada como o temor de alencar.
Anos atrás identificamos uma grande taxa de pessoas que abandonam os empregos repentinamente, a comunidade médica logo imaginou ser uma espécie de psicose coletiva de breve passagem, mas depois percebemos ser outro dos sintomas da ansiedade alencarina, pois todos apresentaram os mesmos sintomas iniciais descritos a seguir:
Iniciam-se com um estado levemente febril, em alguns é comum sentir leves calafrios, acompanhado de sentimentos de reclusão, poucos pacientes tiveram melhora com a introdução de ansiolíticos, que atualmente só podia ser ministrados após rigorosos formulários de controles da agência reguladora médica com a anuição do centro de controle antidrogas municipal. Dias após os sintomas iniciais, observa-se um ressecamento de pele, com expressões semelhantes a dermatites em pacientes idosos, a irritação eleva os níveis de cortisol e nesse estágio pode surgir um zumbido em um ou dois ouvidos, que foi notado especificamente entre jovens de 20 a 27 anos.
Acontece que a doença escala rapidamente e em menos de uma semana, após um intenso ataque de pânico, as funções cerebrais são alteradas e o indivíduo vai entrando em um estado de catatonia, onde ele para de reagir a estímulos sensoriais, com a íris dos olhos e todo o entorno se cobrindo por uma membrana cinza, culminando enfim na perda de consciência geral, o último estágio do Temor de Alencar e desse estágio, não retornando mais…
Quero dizer, não pelos métodos tradicionais. As palavras que escreverei a seguir podem colocar em risco qualquer um que se atreva a dar credibilidade para o relato e podem levar a morte os Alencarinos que a tornarem pública. Que este alerta não seja em vão.
Lembro-me de minha infância, em uma Alencar longínqua, onde a liberdade florescia como um jardim em primavera. Corríamos pelas ruas de terra, aprendemos com nossos erros, tropeçando e caindo, mas sempre nos erguendo com a força da juventude. A juventude agora vive nesses prédios cercados de aço e segurança, quero dizer, aqueles que têm dinheiro e ainda andam fingindo que não estão se drogando diante dos olhos dos pais, hipócritas que deram força e financiaram esse governo do medo. Eles não são impactados pelas mensagens das guardas municipais e das rondas que receberam o aval judicial para matar qualquer suspeito de portar entorpecentes nas ruas. Essa vigilância ostensiva pareceu uma boa ideia no começo, o problema sempre foi aquilo que muita gente alertou no passado: a definição do que era tráfico, uso individual ou quem tinha cara de traficante, contava apenas com a voz do policial. Agora vai além, ele define o que é entorpecente e tem poder para executar a sentença em qualquer lugar, principalmente após o toque de recolher coletivo, às 22hs.
O medo se infiltra em cada canto da cidade, envenenando as almas e aprisionando os sonhos. Os sorrisos se tornaram raros, substituídos por olhares furtivos e sussurros carregados de apreensão. A propaganda massiva dos Juízes substitui as fachadas de lojas, é transmitida durante todas as noites em totens pela cidade, alertas de celulares e vídeos transmitidos pelas redes sociais e canais de streamings oficiais, contam a quantidade de mortos diariamente em tom vitorioso. Esses vídeos fizeram muito sucesso no passado, alimentando programas policialescos, mas agora nenhuma família tem certeza se seu irmão, pai, mãe ou qualquer um volte pra casa, parece que a meta da guarda se tornou matar cada vez mais. Os corpos esticados nas ruas se tornaram o maior indicador de sucesso da guerra às drogas, mesmo que sejam de inocentes portando desodorante, todo mundo pobre virou "suspeito por entorpecentes" e ficou pior depois que acionaram os drones de vigilância constante, voando pela cidade, acusando estudantes ou adolescentes aleatórios. A diversão e a liberdade acabaram em Alencar, aqui virou um caldeirão de ansiedade e medo, resultando nessa odiosa doença enfrentada por nossa comunidade médica.
Sempre tive para mim que algo mais depravado ocultava-se nessas mensagens do Juíz em nossa cidade, afinal, sempre soubemos do poço sem fim de obscuridade que é a alma e a moral humana, principalmente desses que se intitulam cidadãos de bem, estes sempre mantiveram os fuzis apontados para alguém. Então me perguntava qual seria o ingrediente macabro, causador da ignição para o surgimento do Temor de Alencar e dediquei-me a uma engenharia reversa de seus efeitos. Identificando áreas do cérebro mais acometidas pela praga, como o sistema nervoso central e o neurotransmissor acetilcolina que, reduzido, pode significar uma função mental enfraquecida. Lembrei-me de um evento onde foi difundida a pesquisa do Doutor Moreira, neurocientista de renome internacional, que utilizava transmissões binaurais para recuperar funções enfraquecidas cerebrais e minha mente perturbou-se em investigar, tais vídeos propagados pelo Juiz.
Fiquei estupefato e enfurecido quando minha análise identificou tais frequências, que utilizadas com a mensagem de medo, estão contribuindo para colocar nossa cidade em um estado de estresse constante, a fim de roubar-nos as capacidades racionais e emocionais de decisão. Por quantos anos estamos todos nessa redoma de hipnose coletiva? Quais parâmetros levam uns a paranóia e outros ao estado vegetativo do Temor de Alencar? As perguntas são tantas e não podemos tentar respondê-las sem ter nossas vidas colocadas à prova por questionar o governo municipal. Peço que confiram com os próprios olhos ou na melhor expressão, com os próprios ouvidos, os arquivos das próximas transmissões para tomar ciência de que não minto no relato. Eu entenderei aqueles que questionarem, quais minhas intenções, para estes eu ainda trago uma verdade mais transgressora. É que por destino ou desgraça, tal temor Alencarino transformou meu único filho, Angelo em um pária e é ele a causa de todo o afinco com a investigação e foi graças a análise das mesma áreas cerebrais afetadas pela hipnose digital do Juiz, que resolvi seguir pelos caminhos, nada ortodoxos da medicina em nossa cidade e consegui reverter completamente a doença. O Temor de Alencar pode ser facilmente solucionado com um tratamento progressivo, de boas medidas individuais com óleos canábicos. Suplico que o leitor, ousado o suficiente para seguir, do meu aviso anterior neste relato, que agora é necessário se organizar para que a comunidade científica de Alencar confronte a tirania e a insanidade revestida pelo discurso de moralidade para salvar outras vidas. Que a ciência seja um farol para nossa cidade, nos próximos dias compartilharei mais páginas dos meus diários de pesquisa para que vocês possam usar de referência e, claro, que diante das circunstâncias, me isento da obrigação de revelar minha identidade e a de meu filho.
Notas:
**A impressão desta publicação deve ser impressa, para evitar rastreamento digital, segundo meu filho, a notícia deve espalhar rapidamente. Demos um jeito de imprimir nos porões de casa e deixar em áreas de grande tráfego da comunidade científica, laboratórios e universidades. Espero que recebam com urgência a mensagem, cuidei para inserir nos impressos as marcações #TemordeAlencar #CuraCanabica.
sinopses dos próximos capítulos três capítulos: